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Cachorro dormindo profundamente no sofá com as patas levemente movimentadas

Seu cachorro corre dormindo. A pergunta é: para onde ele está indo?

Fernanda Rocha
Fernanda Rocha
· 4 min de leitura

Em resumo

Patas se mexendo, focinho tremendo, pequenos latidos. O cérebro do cachorro não simplesmente “desliga” quando ele dorme — e a fase REM dá pistas fascinantes sobre o que acontece ali.

O cachorro dorme de lado. A respiração muda. A pata dá três corridinhas no ar. O focinho contrai. Sai um latido minúsculo, quase sem abrir a boca.

Nesse momento é difícil não inventar um filme: ele está correndo atrás de uma bolinha? Encontrou o cachorro da praça? Está revivendo o pedaço de frango que caiu no chão?

Não dá para entrar no sonho de um cão e perguntar depois. Mas sabemos uma coisa importante: o sono canino tem fases comparáveis às nossas, incluindo o sono REM, justamente o período associado aos sonhos mais vívidos em humanos.

O cérebro não fica parado quando o corpo descansa

Depois de adormecer, o cão passa por diferentes estágios. Durante o REM — rapid eye movement — os olhos podem se mover sob as pálpebras e pequenos músculos podem se contrair.

É aí que aparecem as cenas que todo tutor conhece: patinhas “correndo”, bigodes tremendo, cauda mexendo, ruídos curtos.

Estudos em outros mamíferos ajudaram a construir a ideia de que experiências do dia podem ser reprocessadas durante o sono. Experimentos clássicos com ratos mostraram padrões de atividade cerebral durante o REM semelhantes aos observados quando os animais percorriam um labirinto acordados.

Isso não permite traduzir o sonho de um cachorro. Mas torna bastante plausível que ele também reorganize memórias e experiências enquanto dorme.

Então ele sonha comigo?

Talvez. Só não existe um aparelho que mostre: “sonho atual: tutor chegando em casa com sacola do mercado”.

É razoável imaginar que experiências importantes façam parte do repertório do cérebro. Cheiros, pessoas, lugares, brincadeiras, medos e rotinas ocupam boa parte da vida do cachorro acordado.

A relação com o tutor, aliás, não é detalhe. Estudos sobre apego mostram que muitos cães usam a pessoa de referência como uma espécie de “base segura” para explorar ambientes e lidar com situações novas.

Se você gosta desse lado menos óbvio da relação, veja também como a rotina e a separação mexem com o comportamento e o que o uivo realmente comunica.

E nos cães idosos? Mudança de sono merece contexto

O sono muda com a idade, mas não existe uma regra simples em que “mexer mais” signifique sonhar mais.

Em um estudo de polissonografia com 28 cães idosos, animais com escores mais altos de disfunção cognitiva passaram menos tempo em sono NREM e REM; os pesquisadores também encontraram sinais de sono mais superficial nos cães mais afetados.

Por isso, mudança importante no ciclo de sono de um cão idoso — especialmente junto com desorientação, ansiedade noturna ou alteração de hábitos — merece conversa com o veterinário.

Uma tremidinha isolada durante o sono continua sendo outra história. O importante é olhar o conjunto.

Sonho ou convulsão?

Essa é a parte em que a curiosidade vira atenção de saúde.

Movimentos durante o sonho costumam ser breves, irregulares e mais “soltos”: uma pata mexe, para, o focinho contrai, o cachorro vocaliza baixo.

Numa convulsão, os movimentos tendem a ser mais intensos ou rígidos. O cão pode não responder, salivar muito, urinar ou defecar e ficar desorientado depois.

Se você suspeitar de convulsão, filme de uma distância segura e procure atendimento veterinário. Um vídeo do episódio pode ajudar bastante na avaliação.

Mudanças neurológicas também entram na lista de sinais de doenças como a sinais neurológicos que exigem atenção, especialmente quando aparecem junto com outros sintomas.

Devo acordar um cachorro que parece ter pesadelo?

Em geral, não encoste nele de repente.

Um cachorro despertado bruscamente do sono profundo pode se assustar e reagir de forma automática. Se realmente precisar acordá-lo, prefira chamar pelo nome a certa distância.

Na maior parte das vezes, o melhor é simplesmente assistir àquela pequena corrida invisível até ela terminar.

Talvez ele esteja sonhando com você. Talvez com um pombo. Talvez com nada que a nossa cabeça humana consiga imaginar.

E essa é justamente a parte mais interessante: convivemos todos os dias com um cérebro que conhecemos muito — e que ainda guarda uma vida privada atrás das pálpebras.

Fontes e referências

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Escrito por

Fernanda Rocha

Médica Veterinária & Fundadora

Médica veterinária pela UFMG e tutora de dois catioros impossíveis. Criou o CatioroCurioso em 2021 para provar que ciência e amor pelos doguinhos andam juntos.

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