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Por que cães cheiram o traseiro uns dos outros: a ciência tem uma resposta fascinante

Por que cães cheiram o traseiro uns dos outros: a ciência tem uma resposta fascinante

Fernanda Rocha
Fernanda Rocha
· 3 min de leitura

Em resumo

Parece constrangedor. Na verdade, é o sistema de identificação mais sofisticado da natureza — e seu cão domina com maestria.

No parque, dois cães se encontram. Em vez de se cumprimentar de frente, vão direto para o traseiro um do outro. Você se envergonha um pouco, tenta puxar a guia — e eles resistem. O que parece um comportamento sem noção é, na verdade, uma das trocas de informação mais completas que existem na natureza.

As glândulas que funcionam como cartão de visita

Cada cão possui duas pequenas glândulas anais localizadas na região do ânus, nas posições 4 e 8 horas de um relógio imaginário. Essas glândulas secretam um líquido oleoso com uma composição química única — uma combinação de ácidos graxos, proteínas e compostos voláteis que varia de indivíduo para indivíduo.

Pesquisadores da Universidade de Cornell documentaram que esse coquetel químico carrega informações sobre: sexo e estado reprodutivo, idade aproximada, dieta recente, estado emocional, presença de doenças ou parasitas e até nível de hierarquia social. É um currículo completo em segundos.

O nariz do seu doguinho tem entre 220 e 300 milhões de receptores olfativos — comparado aos 5 a 6 milhões dos humanos. Alexandra Horowitz, pesquisadora da Universidade de Columbia e autora do livro Inside of a Dog, estima que cães são capazes de detectar cheiros em concentrações 10.000 a 100.000 vezes menores do que os humanos percebem. Para eles, farejar o traseiro de outro cão é como ler um relatório detalhado.

O que seu catioro descobre em 3 segundos de farejar

Enquanto você está constrangido segurando a guia, seu doguinho está coletando uma quantidade absurda de dados. Ele sabe se o outro cão é macho ou fêmea, se a fêmea está no cio, se o animal está estressado (cortisol altera a composição das secreções), se comeu carne ou ração seca, e se já se encontraram antes — sim, cães reconhecem o “cheiro-assinatura” de indivíduos que já conheceram.

E tem mais: ao farejar, o cão usa uma estrutura chamada órgão de Jacobson, ou órgão vomeronasal, localizada no palato. Esse órgão processa feromônios de forma separada do sistema olfativo principal — como ter dois sistemas de leitura ao mesmo tempo. É tanta informação que o cérebro canino precisa processar em paralelo.

Por que isso é saudável — e o que acontece quando interrompemos

Cães que completam o ritual de farejar iniciam interações sociais de forma mais calma e confiante. Um estudo publicado no Journal of Veterinary Behavior observou que cães interrompidos repetidamente durante a saudação olfativa apresentavam maior tensão corporal e mais ocorrências de comportamento reativo nas interações seguintes.

Em outras palavras: quando você puxa a guia no meio do ritual, tira do seu catioro a única ferramenta que ele tem para avaliar se o outro cão é amigo ou ameaça. Ele fica no escuro — e responde com mais defensividade.

Da próxima vez no parque, observe sem intervir. Três a cinco segundos de farejar mútuo, e os dois seguem em frente como se fossem velhos conhecidos. Porque, para eles, já são.


Máquina biológica de análise química vestida de pelo. Isso é o que seu doguinho é.

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Nunca puxe seu catioro para longe durante o farejar de apresentação. Esse ritual é a 'conversa' dele — interrompê-lo gera frustração e pode tornar o encontro mais tenso. Deixe ir até o fim, em geral 3 a 5 segundos, e então sinalize para seguir em frente.

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Escrito por

Fernanda Rocha

Médica Veterinária & Fundadora

Médica veterinária pela UFMG e tutora de dois catioros impossíveis. Criou o CatioroCurioso em 2021 para provar que ciência e amor pelos doguinhos andam juntos.

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