Seu cachorro não é hiperativo: ele está intoxicado por ultraprocessados
Em resumo
O comportamento agitado, o coceiro sem fim e os surtos de energia às 19h podem ter a mesma origem: dentro da tigela de ração.
O Brigadeiro tinha 2 anos e parecia ter bebido o estoque de café do mercadinho inteiro. Latia para o ar, girava em torno da mesa, era impossível de acalmar depois das 19h. Eu, veterinária há mais de dez anos, fui a última a suspeitar da ração que eu mesma escolhi para ele.
O que a ciência já sabe sobre ultraprocessados e o sistema nervoso canino
A conexão entre dieta e comportamento não é achismo — é neurociência. Uma revisão publicada no Frontiers in Veterinary Science (2021) documentou que aditivos sintéticos presentes em rações ultraprocessadas, como etoxiquina, BHA e BHT, alteram a composição da microbiota intestinal em cães, afetando diretamente a produção de neurotransmissores como serotonina e dopamina.
Sim: 90% da serotonina do organismo é produzida no intestino, inclusive no do seu catioro. Um microbioma desequilibrado gera ansiedade, irritabilidade e aquele comportamento que você chama de “personalidade elétrica” — mas que na verdade é um sistema nervoso tentando se regular em meio a uma bagunça bioquímica.
Tem mais: rações baseadas em milho refinado, farinha de trigo e subprodutos têm índice glicêmico elevado. O organismo do cão — um carnívoro com 99,9% do DNA do lobo — não foi projetado para processar esse volume de carboidrato processado. O resultado é um pico de glicemia logo após a refeição, seguido de uma queda brusca que dispara cortisol, o hormônio do estresse. É esse ciclo que produz o doguinho ligado na tomada — não o temperamento.
Os sinais que a ração ruim escreve no corpo do seu doguinho
Coceiro constante sem pulga visível. Fezes amolecidas na segunda metade do dia. Surtos de energia às 19h seguidos de letargia total. Olhos com secreção amarelada frequente. Você identifica cada sinal separadamente — alergia, intestino sensível, “jeito de ser” — quando todos têm o mesmo endereço: a tigela.
O Brasil é o 3° maior mercado pet do mundo, com mais de R$ 68 bilhões movimentados em 2023, segundo o Instituto Pet Brasil. A maior fatia desse mercado são justamente as rações econômicas, ricas em corantes e conservantes sintéticos. O corante tartrazina, por exemplo, está associado a respostas inflamatórias em estudos com mamíferos publicados no Journal of Veterinary Behavior. Não é raro em ingredientes listados com nome técnico no rótulo — que ninguém lê.
O problema não é só o que entra. É o que esses compostos impedem de ser absorvido. Zinco, ômega-3 e triptofano (precursor da serotonina) têm sua absorção comprometida em intestinos inflamados por aditivos sintéticos. O seu catioro come, mas não aproveita o que precisa.
O que mudou quando eu troquei a ração do Brigadeiro
Depois de três meses tentando entender o comportamento do Brigadeiro, fiz o que só faço quando estou desesperada: voltei ao básico. Troquei a ração de supermercado — com 11 ingredientes que eu não sabia pronunciar — por uma fórmula com proteína animal como primeiro ingrediente e sem corantes artificiais.
Em duas semanas, os surtos noturnos diminuíram. Em um mês, o coceiro sumiu. Não foi magia — foi o intestino dele parando de lutar contra o que colocavam dentro dele.
Não precisa ir para dieta raw nem gastar fortuna. O primeiro passo é virar o pacote de ração agora e ler o primeiro ingrediente. A lista segue ordem decrescente de quantidade: se a primeira palavra for “milho”, “farinha de trigo” ou “subproduto”, a proteína animal vem depois de tudo isso. Seu doguinho merece melhor que isso.
Vire o pacote. Leia o primeiro ingrediente. Se não for proteína animal, você já sabe o que mudar.
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Antes de trocar qualquer alimento, consulte um veterinário nutrólogo — a transição precisa ser gradual (7 a 10 dias misturando as rações) para não desencadear disbiose. Uma mudança brusca pode piorar exatamente os sintomas que você quer resolver. Lento e constante.
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Escrito por
Fernanda RochaMédica Veterinária & Fundadora
Médica veterinária pela UFMG e tutora de dois catioros impossíveis. Criou o CatioroCurioso em 2021 para provar que ciência e amor pelos doguinhos andam juntos.
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