CatioroCurioso CatioroCurioso
Tosar seu cachorro no verão brasileiro? O erro que pode prejudicar a saúde dele

Tosar seu cachorro no verão brasileiro? O erro que pode prejudicar a saúde dele

Fernanda Rocha
Fernanda Rocha
· 3 min de leitura

O verão chega com força no Brasil — e junto vem aquela dúvida que divide os tutores: tosar ou não tosar? A lógica parece óbvia: se você sente calor com roupa, seu cachorro deve sentir ainda mais com aquele pelo todo. Então é só raspar e problema resolvido, certo?

Errado. E a ciência explica por quê.

O pelo não é só estética — é tecnologia

O pelo dos cães funciona como um sistema de regulação térmica bidirecional. Ele não serve apenas para aquecer no frio — ele também isola do calor no verão.

A estrutura do pelo (especialmente o subpelo, a camada mais densa próxima à pele) funciona como uma camada de ar que impede que o calor externo chegue diretamente à pele do animal. É o mesmo princípio de uma garrafa térmica: o isolante não deixa o calor entrar, nem o frio sair.

Quando você raspa esse pelo, remove justamente essa barreira protetora. O resultado pode ser o oposto do esperado: a pele fica exposta diretamente ao sol e ao ar quente, aumentando o risco de superaquecimento.

O perigo real: golpe de calor e queimadura solar

Cães com pelo raspado ficam vulneráveis a dois problemas sérios no verão:

Queimadura solar: a pele canina não tem a mesma proteção que a humana. Sem o pelo como filtro, raças de pele clara (como o Dálmata e o Boxer) ficam sujeitas a queimaduras solares reais — que além de dolorosas, aumentam o risco de câncer de pele com exposições repetidas.

Golpe de calor: paradoxalmente, o cão tosado pode ter mais dificuldade de regular a temperatura. O pelos compridos de raças como o Husky Siberiano, o Chow-Chow e o Golden Retriever evoluíram especificamente para funcionar como isolante térmico. Retirar esse sistema sem entender como ele funciona é como retirar o ar-condicionado de um carro achando que vai refrescar.

Então nunca devo tosar meu cachorro?

Depende da raça — e muito.

Raças de pelo único (sem subpelo): Poodle, Yorkshire Terrier, Maltês, Shih-Tzu. Esses cães podem ser tosados com mais segurança, pois o pelo cresce continuamente e não tem a camada dupla de isolamento. Para essas raças, manter o pelo curto no verão é razoável.

Raças de pelo duplo (com subpelo): Golden Retriever, Labrador, Husky, Pastor Alemão, Spitz Alemão, Chow-Chow. Raspar essas raças é um erro sério. O subpelo é o sistema de regulação térmica — sem ele, o cão fica desprotegido tanto do calor quanto do sol. Além disso, o pelo pode não crescer igual depois de tosar, resultando no chamado “Post-Clipping Alopecia” — manchas sem pelo que podem ser permanentes.

O que realmente funciona para refrescar seu cão no verão

Se a tosa não é a solução, o que é?

  • Água fresca sempre disponível — hidratação é o mecanismo de regulação mais eficiente
  • Passeios nos horários certos — antes das 9h ou depois das 17h, evitando o asfalto quente
  • Piscininhas e tapetes molhados — muitos cães adoram deitar em superfícies frescas
  • Ventilação e sombra — nunca deixe o cão em ambientes fechados sem circulação de ar
  • Escovação regular — remove o pelo morto que bloqueia a ventilação natural
  • Atenção à respiração — ofegante excessivo, letargia e gengivas vermelhas são sinais de emergência

O verão brasileiro é sério e o golpe de calor pode ser fatal em horas. Mas a proteção começa pelo entendimento de como o corpo do seu catioro funciona — não pelo atalho da tesoura.


Leia também: Displasia de quadril em cães: os sinais silenciosos

Fernanda recomenda

Em vez de tosar, invista em escovação frequente. Retirar o pelo morto e solto (especialmente o subpelo) melhora muito a circulação de ar pela pelagem e ajuda o cão a regular a temperatura com mais eficiência. Uma boa escovação duas vezes por semana no verão faz mais pela saúde do seu catioro do que qualquer tosa radical.

Compartilha com os amigos! 🐾

Foto de Fernanda Rocha

Escrito por

Fernanda Rocha

Médica Veterinária & Fundadora

Médica veterinária pela UFMG e tutora de dois catioros impossíveis. Criou o CatioroCurioso em 2021 para provar que ciência e amor pelos doguinhos andam juntos.

Ver perfil completo →