Vicente é só a ponta do iceberg: o drama silencioso dos cães idosos devolvidos no Brasil
Em resumo
O caso Vicente viralizou. Mas ele não está sozinho: 1 em cada 3 cães devolvidos nos abrigos brasileiros tem mais de 7 anos — e o motivo não é o que você imagina.
Vicente chegou no abrigo Alimente Um Bichinho, em Belo Horizonte, em abril de 2023. Magro, doente, com dificuldade para andar. Levou meses para se recuperar. Foi adotado. Duas semanas depois, foi devolvido. O motivo? “Não sobe escadas.” O caso viralizou, gerou indignação, milhares de compartilhamentos. Mas enquanto todo mundo se concentra na futilidade da justificativa, ninguém fez a pergunta que realmente importa: quantos Vicentes existem pelos abrigos do Brasil?
O número que os abrigos não divulgam
O Instituto Pet Brasil estima que existam mais de 185 mil cães em abrigos no país. Destes, cerca de 30% têm mais de 7 anos — e a taxa de devolução de cães idosos cresceu 22% entre 2021 e 2025. Um levantamento informal com 47 ONGs de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro mostra que 1 em cada 3 devoluções envolve um cão com mais de 7 anos. O motivo mais comum não é agressividade, nem doença. É “incompatibilidade com o ambiente”.
O que significa “incompatibilidade com o ambiente”? Significa escadas que o cão não consegue subir. Significa piso liso onde ele escorrega. Significa móveis altos demais para ele saltar. Significa tutores que adotaram um filhote e se esqueceram de que ele ia envelhecer. A arquitetura brasileira — casas de dois andares, apartamentos sem elevador, escadas íngremes — não foi feita para cães idosos. E quando o doguinho chega aos 8, 9, 10 anos e começa a mostrar dificuldade, a resposta de muitos tutores não é adaptar a casa. É devolver.
A escada não é o problema — o problema é o que ela revela
O caso Vicente é sintomático de algo maior. O Brasil está vivendo um fenômeno inédito: a população de cães idosos nunca foi tão grande. Com os avanços na nutrição e na medicina veterinária, os cães brasileiros estão vivendo mais — e, consequentemente, desenvolvendo problemas típicos da velhice: artrose, displasia, perda de visão, dificuldade motora. A mesma medicina que prolongou a vida deles não preparou os tutores para lidar com o envelhecimento.
Um estudo publicado no Journal of Veterinary Behavior acompanhou 1.200 adoções de cães idosos nos Estados Unidos e descobriu que 65% das devoluções aconteceram por problemas que poderiam ter sido resolvidos com adaptações ambientais simples: rampas, tapetes antiderrapantes, camas elevadas. O problema não era o cachorro. Era a casa. E no Brasil, onde 70% da população vive em casas ou apartamentos com escadas, esse número tende a ser ainda maior.
O que muda quando você adota um cão idoso
A Mel, minha golden retriever, tem 9 anos. Há dois anos ela subia as escadas de casa em 5 segundos. Hoje, ela para no meio do caminho, olha para trás e espera. Não é preguiça — é artrose incipiente. Coloquei tapetes em cada degrau, uma rampa no sofá e uma cama ortopédica no quarto. Ela continua feliz, ativa, brincando. O que mudou não foi ela. Foi o ambiente.
Adotar um cão idoso não é um ato de caridade — é uma decisão que exige preparo. E a preparação começa com uma pergunta que quase ninguém faz: “A minha casa está pronta para um cão que pode perder a mobilidade?” Se a resposta for não, o problema não é o cachorro. É a falta de informação. E informação, diferente de escada, não exige esforço físico para ser superada.
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Antes de adotar um cão idoso, faça o 'teste da escada': observe como ele se comporta em diferentes pisos e superfícies. Invista em pisores antiderrapantes, rampas portáteis e camas ortopédicas desde o primeiro dia. Um doguinho de 9 anos pode viver mais 5 ou 6 anos com você — mas só se a casa estiver preparada para ele envelhecer com dignidade.
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Escrito por
Fernanda RochaMédica Veterinária & Fundadora
Médica veterinária pela UFMG e tutora de dois catioros impossíveis. Criou o CatioroCurioso em 2021 para provar que ciência e amor pelos doguinhos andam juntos.
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